Eu não sabia por onde começar até fazer Shakshuka. Era noite, havia passado o dia um tanto fora de mim, ou esse internalizada-aprofundada-mergulhada era o mais dentro de si que havia, mas de toda forma, só tomei banhos de sol e não me lembrei de comer. Me levantei e fui para a cozinha; precisava fazer compras no fim de semana. Olhei por algum tempo e decidi fazer algo fácil: separei quatro tomates grandes, temperos e três ovos. Refoguei cebola roxa e pimentão verde, coloquei os tomates já sem pele e cortados em alguns pedaços mais grosseiros, então tampei. A tampa da frigideira era transparente e o vapor logo tomou conta deixando-os quase invisíveis. Cortei salsa e manjericão. Tudo que eu tinha que fazer era cortar e esperar.
dois parágrafos ocultos
Sob a luz amarela da cozinha e me sentindo tão quente quanto embriagada, coloquei uma música para esp+antar o silêncio (ou para fazer companhia ao Silêncio e eu; havia uma diferença entre silêncio que se ouve e silêncio que se sente, este último era quase companhia que extravasa seu próprio corpo e te encara de todos os lados, digno de nome próprio e da sua própria taça vazia ecoando o silêncio que ele mesmo tomava e saía -ou não-saía?- de mim), e um tom de jazz tomou o cômodo. Me pareceu apropriado.
Um dos pensamentos que me ocorreu (e que detestei, porque preferia silêncio absoluto a uma interrupção dessas) foi que você não gostava daquela música. Achava estranha, “desconfortável”. E eu me encontrava justamente nela. Eu causaria esse efeito também? Algumas coisas eram indistinguíveis de só gostar e fazer parte de nós; algumas eram escolhidas a dedo, outras pareciam nos refletir ou completar de alguma forma; ninguém é completo por si só, de forma crua e sem nada que grude na pele e nos ossos, tudo é mosaico e construção contínua — mas eu queria destruir as vigas que você deixou. Eu queria arrancar as ervas daninhas que cresciam na minha perna e não me permitiam andar; eu arrancava de vez em quando e sempre voltavam, fosse sob um pensamento, um desejo, um olhar alheio.
um parágrafo oculto
Esvaziei minha taça na frente do Silêncio, dizendo-o assim que estava cheia. Ele não se mexeu, a dele continuava até a boca. Mas então algo no seu olhar (não tinha olhos, mas pude jurar que vi uma pupila naqueles buracos opacos) pude entender (ou ter um relance de entendimento) o que ele queria.
cinco parágrafos ocultos
essa carta é um experimento. você leu fragmentos de quatro páginas A5 com direito a ilustração, recadinho e assinatura. essa carta acompanha uma pintura que postei recentemente com um verso de cartão postal (imagem acima), e esse é o início do que eu pretendo fazer durar — mas como sempre, depende principalmente de vocês pra existir. então decidi fazer um teste piloto antes de lançar uma assinatura.
caso você queira receber essa carta + a pintura via correios, preencha o formulário abaixo. o custo inicial é de 20,00 (o que inclui o gasto com a gráfica para impressão, embalagem que quero fazer beeem bonitinha, envio, e claro, a arte + carta em si)
a primeira remessa de envios será feita no dia 31 desse mês; caso entrem mais pedidos após essa data, o próximo envio será feito dia 14 de agosto
espero que gostem <3
ps: nanai chamou isso de newsletter física e eu amei!! levemos assim então: essa é sua newsletter mensal impressa : ) beijo





meu deus uma newsletter física você arrasou nessa bê!!!
Ai que agonia não consegue ler tudo!!! Ansiousa demais pra saber da história completa 🤧