nada permanece
[efeitos de causalidade]
atravessamos uma infinidade e tudo nos atravessa. tudo vai, tudo passa por nós também, tudo continua sem nossos corpos, sem nosso fôlego, nossa presença, nossas ridículas tentativas de controle e intervenção no inevitável. ao mesmo tempo, tudo pode ter mais cor, mais vida, mais fôlego e mais acaso (e por isso mais fôlego) por conta das nossas pegadas.
nós vivemos e deixamos impressões por aí como se não fosse grande coisa. passam os anos e não cogitamos que o passado ainda pense em nós, que algo bom ainda reverbera, que uma saudade desperta vez ou outra: nós vivemos, morremos e continuamos até o próximo portal de novidade-acaso-casualidade-tropeço-destino. e uma hora ele pode morrer também — e então ficam as pegadas e os pés continuam.
a única permanência é a mudança. a continuidade das coisas, independente se nossas ou não. esqueça esse papo de sol nos engolindo daqui a bilhões de anos: o que temos é o agora e ele é a eternidade. eu respiro e essa respiração cheia de frio desses supostos doze graus se mistura ao ar; será que tudo morre mesmo porque tudo é matéria ou tudo se perpetua por esse mesmo motivo?
comecei o texto querendo perguntar o que você sente lendo isso: nada permanece. medo? conforto? indiferença? essa frase ecoa desde antes de eu postar o avesso do amor é o apego, inspirado [em parte] por estátua de mármore, anavitoria (minha favorita de claraboia). mas a verdade é que eu não quero uma resposta. eu quero plantar a pergunta e que você rumine ela sem a pressa e o imediatismo de tudo, de preferência ouvindo a melodia de 3am | espirais da repetição da mesma dupla. sem dizer nenhuma vez, ela também carrega essa palavra tão forte que evitamos pensar.
não pensamos em permanência de modo amplo porque não gostamos de pensar nos fins. a única que nos interessa é a que aquece, a que conforta, a que traz sentido, e que no final das contas é muito mais reflexo nosso desejo do que permanência em si. nós temos um acontecendo, um agora. a extensão é relativa e quanto mais se prolonga, mais queremos que fiquem. é nosso desejo por estabilidade e segurança em qualquer âmbito, mas nada permanece. e mesmo que esse milagre venha revestido de pegadas que acompanhem e flores que não murchem, nós não permanecemos. e não apenas no sentido de morte, mas pensamos tanto que queremos que tudo sempre fique na mesma e nós mesmos mudamos — de ser, de vontade, de estar. algumas mudanças nem são tão nítidas a princípio, outras são tão bruscas que mudam nossos olhos de uma forma irremediável; pisca e já não se vê. você mesma não permanece, entende? e enlouquecemos na nossa ausência brusca porque isso que chegou é outro algo a se conhecer e permanente até que também assuma uma outra forma, sendo a pegadas ou a salto olímpico. é tudo como estar sentado numa mesa pequena e redonda na cozinha: você sai, volta e a ela muda — bem quando os azulejos já eram tão familiares que olhar para eles era um conforto. é certo entrar na cozinha e ver os azulejos, é como as coisas são. no fim, todas as coisas só estão. inclusive nós.
o tempo deturpa nossa noção ao ponto de longo se transformar em sempre e muito se transforma em definitivo. o que é mais difícil de lembrar é que as coisas ruins também não permanecem. nisso, a frase é reconfortante.
eu ainda acho essa palavra mais impactante e significativa do que “eterno” porque algo parece mais distante, um tom de cosmos, quase pós-vida, uma coisa do depois (e essa continuidade talvez não nos atravesse tanto quanto a que vivemos). ainda assim, vivemos cada coisa como se fosse um novo estado estático, sólido, como se a coisas não fossem mutáveis.
e então a nossa própria impermanência: esses nossos novos modos de ser e os lugares visíveis e as coisas palpáveis que de repente murcham também. esse nosso ímpeto de querer ir embora e querer mudar — querer mudar toda a casa e pintar as paredes e os móveis e trocar os pisos —, de repente queremos trocar tudo porque nós é que já fomos e tudo deve ir junto. há essa coisa brusca de ser, que de repente [num processo que na verdade não é repentino] é outra coisa. isso de ir ou não, no que é visível e no que é abstrato, é coisa de se estagnar um pouco — mas essa mesma estagnação não perdura porque nada…
e não vejo solução além de seguir porque, até o fim, tudo é continuidade — tudo se renova e isso é a linearidade das coisas que dão nós, cada ponto sendo um fim, cada fim um ponto de não-retorno porque nos muda e nenhuma química interna se desfaz; vivemos nesse paradoxo de que nada é permanente e tudo existe de forma imparável e incontrolável; o que prossegue é essa artimanha de sempre ter algo acontecendo ou sendo tecido pra acontecer.
ainda que quase nada seja tão permanente assim, sobra a certeza de que se continua num outro começo, uma nova forma — se refazer também é se eternizar um pouco.
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eu sinto medo e alívio. medo do desconhecido, de esquecer o passado, de sempre ter que passar por esse processo de adaptação como um peixe fora d'água toda vez. e alívio por saber que passa, porque já passou antes e vai passar de novo, e isso significa novas chances e de começar de novo. existe uma esperança inerente a esse sentimento de que sim, vai passar, vai mudar, porque é isso que as coisas são: elas não são, elas estão. ai bê aqui você canetou demais, é impossível ler e não sentir nada tamanha sua sensibilidade, quando você escreve parece que as palavras ganham vida 💚
Esse artigo doeu na alma! Que lindo🥺